Macunaíma no Espaço



“No início o universo foi criado, isso irritou profundamente algumas pessoas e, no geral foi encarado como uma péssima ideia” - Douglas Adams


Meu primeiro contato com O Guia do Mochileiro das Galáxias não foi nada receptivo. Na época, me interessava apenas pelos livros de J.R.R.Tolkien e qualquer coisa que tivesse Star Wars no título. O Guia do Mochileiro encontrava-se esquecido em minha pilha de leitura, dava-lhe apenas um pouco de atenção para comentar sobre aquela capa estranha, que mostrava o universo, um trator amarelo, um robô tristonho que foi claramente desenhado no Paint e as letras garrafais dizendo “Não Entre em Pânico”. Todavia, bastou uma folheada para tornar-se um de meus livros favoritos, um dos mais bem escritos e um dos mais prazerosos para ler, reler e reler.


O Guia do Mochileiro das Galáxias narra uma montanha-russa de ações, em poucas páginas ocorrem tantos eventos, arcos, piadas e histórias paralelas que poderíamos chamar de “Macunaíma no Espaço”. Essa prosa ágil somada ao típico humor nonsense britânico são a essência do livro.


A história começa com a destruição do planeta Terra, e o sobrevivente inglês Arthur Dent, que se encontrava infeliz com a vida pacata que levava, é obrigado a passar por situações muito piores pela galáxia. Seria algo como O Hobbit alternativo. Ele é salvo por um alienígena disfarçado de ator falido na Terra, seu nome, Ford Prefect, que acreditava não chamar muita atenção usando o nome de um carro da década de 60.


Logo somos apresentados ao Zaphod Beeblebrox, um humanóide de duas cabeças que tornou-se presidente da galáxia, a Trillian, segunda e última sobrevivente humana terráquea no universo, ao Marvin, o robô maníaco depressivo, e muitos outros personagens, cada um com suas características marcantes e timing-cômicos próprios.


Escrever boas comédias não é uma tarefa fácil, tanto que, a história principal do livro é bem simples, mas as linguagens e os subtextos são os responsáveis pela sua genialidade. Um artifício utilizado é a existência do Guia, seria uma espécie de tablet onde existem todas as informações, verdadeiras ou falsas, sobre a galáxia, tipo o Wikipédia. Assim o autor escreve parágrafos e capítulos inteiros de citações ao Guia, criando histórias paralelas.


É impossível resenhar sobre O Guia do Mochileiro das Galáxias sem falar de seu autor, Douglas Adams. Considerava-se um “ateu radical” e satirizou muitos aspectos da religião em seus livros. Era um amante da tecnologia, acreditava que as máquinas eram uma expansão natural da mente humana e foi um dos maiores compradores da Apple. Era aficcionado por ecologia e por animais selvagens ao ponto que, para promover a organização Save the Rhino International, escalou o Monte Kilimajaro fantasiado de rinoceronte.


Teve a ideia para o livro enquanto viajava de mochilão pela Áustria portando um exemplar de “O Guia do Mochileiro da Europa”, achava que explorar o espaço seria muito mais divertido do que o Velho Continente. Lançou sua história como uma série de rádio pela BBC, em 1978. No início teve dificuldade, já que não eram comuns histórias de comédia sobre ficção científica.


A história tornou-se livro em 1979 e dois anos depois virou uma minissérie de TV, também pela BBC. Não demorou muito para os editores exigirem uma continuação, o problema é que Douglas Adams era um exímio procrastinador. E inúmeras tentativas foram realizadas para que ele escrevesse. Chegaram a trancá-lo dentro de um quarto sem janelas até que estivesse pronta a obra.


Mas no final conseguiu, escreveu a “trilogia de cinco”. Em que fomentava a grande busca do “porquê” para a Resposta Da Vida o Universo e Tudo Mais, que no caso é 42. Piadas com a economia, a política e a ciência estavam lá. Continuou dando ênfase para a chatice das relações humanas, como a burocracia, seu maior ódio. E as demais visões niilistas e existencialistas continuaram presentes.


Temos então as sequências: O Restaurante no Fim do Universo, A Vida O Universo e Tudo Mais, Até Mais e Obrigado Pelos Peixes e Praticamente Inofensiva. Mas além de O Guia do Mochileiro, Adams escreveu “Agência do Detetive Holístico Dirk Gently” e “A Longa e Sombria Hora do Chá da Alma”. Foi roteirista do grupo Monty Python, escreveu ideias de episódios de Doctor Who e desenvolveu um jogo chamado Starship Titanic. Sem falar do material que foi publicado após a morte do autor no “Salmão da Dúvida”.


Douglas Adams faleceu em 11 de maio de 2001. Duas semanas depois é comemorado o Dia da Toalha, que segundo O Guia do Mochileiro a toalha é o item mais útil do universo, no dia 25 de maio.


Ele deixou um grande legado: Neil Gaiman, autor de Deuses Americanos e Belas Maldições, co-escreveu a sua biografia. A série Rick and Morty se inspirou fortemente em O Guia do Mochileiro. O asteroide 18610 foi nomeado como “Arthurdent” em homenagem ao protagonista da história. Em 2005 foi feito um filme baseado na obra. Em 2009, Eoin Colfer escreveu o sexto livro da saga “E tem outra coisa…” . E se você leitor pesquisar no Google “A Resposta para a Vida o Universo e Tudo Mais”, encontrará A Resposta.


Me arrependi de ter julgado o livro pela capa. A saga de O Guia do Mochileiro das Galáxias é formada por livros curtos e divertidos de serem lidos. As situações improváveis e absurdas, por mais que não sejam o seu estilo de leitura, serão capazes de permanecer na sua mente por um longo tempo. E talvez você possa descobrir as respostas para “De onde viemos?” “Por que estamos aqui?”, “Para onde vamos?” e “Onde vamos almoçar hoje?”



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