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Quando um quarto se torna um mundo

 

Existe um truque para não se decepcionar com uma adaptação cinematográfica ou televisiva: nunca leia o livro antes de assistir ao filme/série. Sendo da área de Comunicação, sou muito democrática quanto aos formatos de entretenimento. Nunca entendi a mania que muitas pessoas têm de menosprezar os meios considerados de fácil “absorção”, como o cinema ou televisão. Cada um possui sua particularidade em termos de linguagem, estética e sinestesia, e todos merecem ser aproveitados à sua própria maneira.

Contudo, entendo a inevitabilidade da sensação de que se perde muito da história quando um livro é adaptado. Afinal de contas, infelizmente não é possível adaptar uma leitura de 400 páginas para o audiovisual sem que se perca passagens e detalhes da história original. É uma questão de tempo e coerência.

 

Pensando nisso, comentarei sobre o livro “O Quarto” (no original: “Room”), de autoria da irlandesa Emma Donoghue. Talvez você nunca tenha ouvido falar do livro, mas provavelmente ouviu falar de sua adaptação: “O Quarto de Jack” (no original, também “Room”), dirigido por Lenny Abrahamson, recebeu quatro indicações no Oscar de 2016 e garantiu à Brie Larson sua primeira estatueta, na categoria “Melhor Atriz”.

 

Assisti ao longa estrelado por Brie Larson e Jacob Tremblay sem saber que havia sido adaptado de um livro. Envolvida pela história mesmo após o seu final, pesquisei mais sobre e então descobri a obra original. Não hesitei: comprei o e-book na mesma hora. Após finalizar a leitura, percebi o quanto havia gostado do livro e do filme da mesma forma, cada um com suas particularidades. A leitura feita após o contato com o longa fez com que eu somente visse desdobramentos detalhados do enredo, e não que tivesse aquela sensação ruim de estar perdendo detalhes de uma história que eu já havia lido.

 

Um resumo do enredo, “O Quarto” aborda a história de Joy, uma jovem que foi sequestrada e é mantida em cativeiro por sete anos. Ela agora tem um filho, Jack, de cinco anos, fruto dos abusos de seu sequestrador. Para tornar melhor a vida do filho, Joy o faz acreditar que o “Quarto” – nome que deu ao pequeno aposento em que vivem – é o mundo, e que não existe nada além dele. Jack cresce em meio à sua imaginação, criando seus próprios entendimentos sobre o mundo. Contudo, exausta pelo sofrimento, Joy decide contar a ele a verdade e tentar escapar de seu pesadelo, mas sofre relutância por parte do menino, que custa a acreditar que existe um mundo de verdade fora dali.

 

É difícil encontrar um autor que consiga exprimir tão bem os sentimentos de uma criança quanto Emma Donoghue fez, ao colocar Jack como narrador – eu diria que ela só “perdeu” para Kathryn Erskine, autora do meu livro preferido, “Passarinha”. As sensações primitivas, a imaginação expressa nas reflexões de uma mente curiosa, e até mesmo as características da fala de uma criança em desenvolvimento, são cuidadosas e muito realistas. Donoghue constrói a história com uma narrativa infantil fascinante, poética em todo seu decorrer.

 

Posso mencionar, por exemplo, as seguintes citações que me fascinaram:

“As vitaminas são remédios pra gente não ficar doente e não voltar ainda pro Céu. Não quero voltar nunca, não gosto de morrer, mas a Mãe diz que pode ser legal, quando a gente tem cem anos e se cansa de brincar”.

 

“— Meus dentes melhoram um pouco quando paro de pensar neles — ela me disse.

— Como é que pode?

— Isso se chama a vitória da mente sobre a matéria. Quando a mente não liga, a matéria não tem importância”.

 

“É esquisito ter uma coisa que é minha e não é da Mãe. O resto tudo é de nós dois. Acho que o meu corpo é meu, e as ideias que acontecem na minha cabeça. Mas as minhas células são feitas de células dela, quer dizer que eu sou meio dela. E também, quando eu digo pra ela o que estou pensando e ela diz pra mim o que está pensando, nossas ideias de cada um pulam na cabeça do outro, que nem lápis de cera azul em cima do amarelo, que dá verde”.

 

      Embora a autora aborde questões tensas e perturbadoras, como os abusos sexuais sofridos por Joy e o próprio sequestro, Donoghue conseguiu encontrar um ponto de equilíbrio: um livro que não perde a seriedade do tema que trata, mas que acaba por ter uma narrativa sutil e delicada.

A trajetória das personagens é repleta de desafios e superações, e a história aborda a força de uma jovem, agora mulher, que, mesmo sofrendo grandes horrores, enfrenta atrocidades para garantir a segurança de seu filho. Uma situação fictícia que se demonstra extremamente real quando pensamos no grande número de mulheres que, infelizmente, já passaram ou podem estar passando por momentos angustiosos como os de Joy.

 

Retornado à minha introdução, peço licença para falar sobre a adaptação cinematográfica. Brie Larson e Jacob Tremblay (Joy e Jack, respectivamente) exibem atuações impecáveis, capazes de emocionar até os mais insensíveis. O roteiro, indicado ao Oscar de “Melhor Roteiro Adaptado” em 2016, é, sem dúvidas, uma das melhores adaptações que já vi – e eu logo fui entender o porquê, quando descobri que foi escrito pela própria autora do livro. Emma Donoghue soube adicionar e remover detalhes sem interferir na essência e nos elementos-chave da história. Mesmo assim, eu diria que a leitura do livro eleva as sensações a outro nível, proporcionando uma imersão ainda maior no enredo.

“O Quarto” é um livro que fascina, principalmente pelas reflexões e sensações que proporciona. Sem dúvidas uma obra que entrou para a minha lista de preferidas, que provavelmente será relida por mim muitas e muitas vezes.

 

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