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São três da manhã. Estamos numa festa. Não faço ideia do que eu usei hoje e muito menos do que eles usaram. Só curtimos, como adolescentes normais. Eu que sou o motorista, então parei de beber faz alguns minutos.

– Pessoal, vou indo na frente para preparar o carro – eu disse, saindo – Vocês não demorem. Eu deito no banco até todos chegarem, aproveito e dou um cochilo.

– Vai logo, levanta – eu acordo com um cutucão - tem certeza que consegue dirigir?     – Mas é claro, já fiz isso antes, não tem nada com o que se preocupar – todos entram e eu ligo o carro. No meio do caminho uma luz, a última coisa que eu pude fazer foi jogar o automóvel para a outra pista.

Minha cabeça dolorida. Senti cheiro de remédio. Meus olhos não respondiam aos meus comandos, nem o resto do meu corpo. Algo apitava em sincronia com meus batimentos, estou vivo. Tentei de novo, mas as pálpebras estavam pesadas. Mais uma vez... Sinto uma flecha de luz, isso arde, mas a dor mostra vida. Pisco algumas vezes, ninguém ao meu redor, é um quarto de hospital. O que eu estou fazendo aqui? O que é isso tudo? Cadê o resto do pessoal? Eu não lembro de quase nada. A porta abre e um senhor de jaleco entra e começa a me examinar:

– Já acordou? Ótimo, você é um rapaz sortudo, nem todos tiveram essa sorte.

– Todos quem? Como assim? – Na hora eu penso.

– Calma meu jovem, eu só vou checar se está tudo certo, depois nós podemos conversar melhor, agora... –  A vista embaçou e eu apaguei. Acordo e o quarto está mais escuro, e está começando a ficar mais fácil abrir os olhos. Olho para o lado e minha mãe está lá.

– Meu filho, eu estava tão preocupada – ela vem me abraçar, e isso dói, mas é tão confortável que não tinha problema – ainda bem que você está aqui, eu tive tanto medo de te perder...

– Mãe, eu te amo tanto. Desculpa, eu não lembro de quase nada da noite passada, só de chegar na festa... - ela se afastou para olhar no meu rosto.

– Então, olhe bem nos meus olhos, muita coisa aconteceu, quero que você respire e se acalme – nesse momento meu coração já dispara, coisa boa não é – primeiro, fazem 5 dias desde a festa – ela fez uma pausa esperando minha reação, mas eu não sabia como reagir – Vocês saíram todos bêbados e bateram de frente com um caminhão... Mas agora o importante é que você está bem.

– Mas o que aconteceu com meus amigos? Como assim bem? Nós sofremos um acidente... – eu tento me mexer, mas tudo dói.

– Depois falamos sobre isso, é melhor você descansar, seu corpo ainda não se recuperou.

– Não, só depois de saber tudo o que aconteceu, cadê eles mãe? – ela hesita por um momento.

– Eles... – isso está me matando – bom, na hora da batida os dois da direita não resistiram, o caminhão passou por cima, um que estava no meio morreu na mesa de cirurgia, e os dois da esquerda estão no hospital, a menina está em coma e o

garoto... – foi como um balde de água fria, meu corpo estremeceu, eu perdi o ar e a consciência foi junto.

Passados alguns dias me deram alta. Meus pais não me deixaram ir ver a minha amiga, a mãe dela estava muito mal e não queria me ver, eu tinha causado tudo aquilo e não podia fazer nada para mudar. Tudo que posso fazer é aceitar e tentar melhorar, fazer de tudo para confortar as famílias, o tempo não volta. No dia do enterro eu levantei sem motivação alguma, os dias estavam se arrastando como nunca, todos me olhavam e apontavam os dedos, mas eu preciso permanecer forte, eu ainda estou aqui, vivo. Mal abri a porta e todos já me olhavam, sussurros surgiam de todas as partes, os comentários eram piores a cada segundo, não olhei ninguém nos olhos. O irmão mais velho de um deles me empurrou:  - O que ele está fazendo aqui? - sua cara ficava cada vez mais vermelha – Ele é o culpado de toda essa dor e vocês ainda aceitam que esse garoto fique aqui? Que chore por essas vidas? As quais ele mesmo tirou. Eu me solto dele e vou em direção aos caixões, todos feridos, sem vida. A vida que eu roubei dos meus melhores amigos, meus irmãos... “Me perdoem, eu vou fazer tudo aquilo que estiver ao meu alcance para mudar isso, para arrumar as coisas” As lágrimas descem e ardem, doem, mas não cessam.

Eu me levanto e vou embora, em direção ao hospital, se ela ainda está viva eu devo protegê-la com a minha vida. Na recepção disseram que só a família poderia entrar, disse que era o seu namorado, mas meu nome estava na lista de proibidos. Então fui andando e fiquei parado na porta, olhando para ela, como eu amo aquela garota, porém agora eu sou sua assombração que tirou tudo dela, a atrai para a morte, só queria abraçá-la, confortá-la, pedir perdão, só que era tarde demais. Eu grito por seu nome, volte, por favor, e em questão de segundos o seu coração para. A máquina apita e a mãe dela aparece no fundo do corredor, ouve o som e ao me ver, seus olhos enchem de fúria, suas mãos me acertam no rosto:

- A CULPA FOI SUA! - não sentia dor, aquilo não era nada comparado ao que eu a fiz sentir - Você fez isso com eles, tirou tudo que eu tinha, seu monstro, você deveria ter morrido no lugar deles...

-Me perdoe, eu... - os médicos a afastam de mim e eu corro, o mais rápido que posso, para qualquer lugar, para o fim, isso não era justo, por que eu estou vivo? Eu não mereço. Quando dou por mim estou na ponte que liga minha cidade à uma ilha, a queda é longa, ouço a sirene de bombeiros, um deles para embaixo de mim.

-Meu jovem, desça daí. Você não precisa fazer isso, seja o que for, pode ser resolvido – e estende sua mão para mim.

-Não. Eu não mereço viver. Não mereço estar aqui. Eu sou um monstro.

-Cara, não fale assim, todos cometemos erros, mas devemos aprender com eles, todos nós merecemos uma segunda chance.

Eu pensei nos meus pais, no alívio da minha mãe por me ver vivo, eles não mereciam isso, nem ninguém, já havia dor demais envolvida...

-Pula! – alguém gritou do meio dos carros. -Anda logo, ninguém liga.

-Você é um estorvo.

-Pare de querer chamar atenção.

-Se você quisesse mesmo se matar já teria feito isso, vai anda logo com isso.

Eu vou... -Uma segunda chance – o bombeiro repetiu. E então eu caÍ. Me joguei e senti meu corpo livre, uma voz familiar do céu me gritava, me chamava e... “ACORDA”

- Onde eu tô? - num susto eu levantei e bati a cabeça. Olho em volta, é um carro, meu carro.

-Ué, na festa, no seu carro, você disse que vinha ligar o motor para que a gente vá embora. Eu estava de volta naquela noite, mas que bizarro, todo mundo tinha morrido e... Uma Segunda Chance. -Então pessoal, liguei pro meu pai, não tô afim de dirigir hoje não.

 

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