30 Oct 2019

Please reload

Posts Recentes

5 Filmes Inspirados em Livros

9 Nov 2017

1/4
Please reload

Posts Em Destaque

 

 

3:57 da manhã.

Malibu, costa oeste dos Estados Unidos, Califórnia.

 

Quando finalizo a organização da minha mochila, respiro fundo e encaro minha figura no pequeno espelho do banheiro feminino, antes de apressar meus passos para chegar ao portão lateral, onde encontraria Jim, esperando por mim, se arriscando por mim. A primeira vez que o vi, ele estava sentado de forma desajeitada tentando amarrar seus coturnos pretos, suando no calor da Califórnia por baixo do uniforme camuflado da EMM, a Escola Militar de Malibu. Ele era um garoto de 14 anos, meio magricela, de olhos em formato de amêndoas e baixo demais para sua idade, mas agora, aos 17, ele tinha crescido pelo menos 15 centímetros e encorpado de forma que as outras garotas da EMM o olhassem de forma furtiva quando passava. Mas eu não pensava em Jim desse jeito, ele só era meu melhor amigo desde que fui enfiada nessa escola por uma mulher que acha que controla minha vida como bem entender. Na verdade, Eva é irmã mais velha de meu pai e também a única parente viva que tenho, e por isso tem o direito e tomou a liberdade de me inscrever na escola em que ela viveu durante a infância e adolescência, mas eu prefiro chamar esse lugar de inferno.

 

Neste exato momento, estou a procura do meu paraíso, vou fugir dessa prisão e ir para o mar.

 

- Você acha que vai resolver as coisas fugindo? - Jim segura meus ombros e me olha preocupado, sussurrando para não sermos descobertos. Essa era minha única chance, a troca de guarda.

- Não, mas mesmo que Eva me mate, seu eu tiver que olhar para mais algum sargento bigodudo vou explodir.

- Ok então, Lily. - ele me abraça rapidamente e sorri levemente preocupado. Essa não era uma conversa nova. Na realidade esse sempre foi um assunto turbulento em minha vida, desde que meu pai sofreu um acidente, e acabou morrendo há cinco anos atrás. - Agora vai, já são quatro da manhã, vai e ganha esse campeonato. Joga sua coragem na cara deles.

 

Sorrindo de um jeito nervoso olho ao redor, não havia ninguém além de nós, apesar de já poder ouvir passos a distância. Aceno para Jim uma última vez, e me arrasto pelo buraco na cerca, sujando meu uniforme de barro. Ponho-me de pé e não olho para trás antes de sair andando pela rua larga e vazia, mesmo de longe eu já podia ver o movimento do mar me chamando e deixando-me hipnotizada. Pego minha inscrição dobrada em várias partes, que foi enfiada dentro do bolso da farda com a assinatura de Eva falsa, porém idêntica a original, e duvido que alguém falaria alguma coisa pra mim, porque apesar de meus 17 anos, eu tinha uma aparência madura, com olhos pretos grandes e sobrancelhas bem marcadas, os cabelos escuros presos em um coque firme e minha estatura acima da média. Meu pai costumava dizer que não importa quantos anos você tem, a maturidade é proporcional ao tanto que você ama alguma coisa.

 

Sinto meus dedos formigarem e lágrimas queimam sem escorrer, subo meu olhar para as estrelas e me consolo com aquilo. De alguma maneira ainda me sinto conectada com meu pai e com o surf. Ele sempre esteve no mar, e eu estava junto com ele, aprendendo, me envolvendo e apegando cada vez mais nesse esporte e estilo de vida. Depois de sua morte, a desconexão com o mundo era a única coisa que atravessava minha mente. Senti como se mais nada me segurasse nessa vida, só minha prancha e a sensação da água nas pernas, a adrenalina de um Aéreo. Isso causou vários conflitos com tia Eva. Todas as vezes que fugi da casa dela para ir para a praia, só surfar, ficar horas no mar sem avisar onde estava talvez não tenha ajudado com toda a situação da EMM, mas não consigo explicar como o mar mexe comigo. Sei que ela se preocupa comigo, pelo fato de meu pai ter morrido pelas ondas que tanto amava, e o jeito dela é ser rígida, mas também sei que algumas pessoas tem esse sentimento com música, arte, lutas ou outros esportes, é como se fosse um chamado e as ondas me gritam, não importa o perigo.

 

Caminho até uma lanchonete 24 horas, e tomo um café da manhã com parte do dinheiro que tinha economizado, agora só me sobravam 14 dólares, mas quando eu ganhasse o concurso, patrocinadores podiam começar a prestar atenção em mim, então aí a conversa com tia Eva poderia acontecer e eu seria independente. Mas por agora só vou me concentrar em me preparar para o campeonato e dar o meu melhor para vencer, transformar minha vida em algo que meu pai teria orgulho e eu também. Quando acabo de comer, entro no banheiro mal iluminado do estabelecimento e troco minhas roupas camufladas pela roupa de surf, uma camisa de manga longa amarela feita de lycra, e um short jeans largo. Olho em meu relógio de pulso, são 5:20 e ainda está escuro, e eu tenho que continuar andando, quando os ponteiros marcarem seis horas devo estar na porta de Luka, esse pensamento faz meu coração pular, mas afasto a sensação rapidamente, não há tempo para paixõezinhas.

 

Volto a mochila para as costas e me despeço do senhor que trabalhava ali, o sino toca quando abro a porta, a deixo fechar novamente atrás de mim, a essa distância já posso sentir o cheiro da maresia e meus pêlos da nuca ficam arrepiados. Não consigo evitar o sorriso, e me apresso para finalmente chegar à praia. Depois de andar mais 30 minutos já estou na área frontal da casa pé na areia de Luka. Subo os três degraus da estrutura simples e colorida com um azul bebê, eu já tinha passado tantas manhãs naquele lugar, treinando com meu pai e Luka, e olhando o mar se estender dourado até onde meus olhos alcançassem. Finalmente  toco a campainha e espero. Mais ou menos um minuto depois o garoto alto, com trancinhas crespas amarradas e pele escura aparece com um semblante sonolento e me dá um sorriso surpreso. Sinto o baque da saudade que tinha dele, não o via a quase quatro meses.

 

- Minha flor! - o trocadilho com meu nome ser Lírio na língua inglesa, sempre foi uma forma de carinho entre nós, desde crianças. Ele me puxa para um abraço e o sorriso chega nos meus lábios, juntamente com o cheiro de sabonete da pele do menino.

 

- Oi, Luka…. - sinto minha voz tremer levemente.

 

- Você vai surfar hoje, né? - seu tom mostra que ele já sabia a resposta antes mesmo de eu responder. Eu sempre fui meio impulsiva.

 

- Vou. É por isso que estou aqui, antes mesmo do sol nascer.

 

Sem mais questionamentos, Luka abre espaço para que eu entre em sua casa, e eu passo por ele, que me guia até a porta dos fundos, onde saímos e logo vejo a pequena cabana. Todas as pranchas de meu pai, as minhas e de Luka estariam ali dentro, minhas pernas chegam até a tremer de emoção. Quando entro a primeira coisa que vejo é Baby, prancha que Nicky Steven, meu pai, usava. Minhas mãos ansiosas a tocam, meus dedos deslizam pela superfície dura e quase me sinto arrepiar, pego Baby e ponho entre minha lateral e o braço, escuto o quebrar das ondas e vejo os primeiros raios de luz.

 

- Quer ver o nascer do sol? Antes de eu cair com essa belezinha na água? - pergunto, já me deslocando para fora.

 

Andamos em silêncio até a beirada do mar, agora um constrangimento pairava entre nós, talvez tenha algo a ver com o jeito que os olhos castanhos dele me olhavam agora, de um jeito que eu não sei exatamente como agir, que faz com que meu estômago fique inquieto. Nos sentamos, na areia fofa. O sol começava a aparecer e me aproximo de Luka quase como involuntariamente.

 

- Você acha que eu tenho chances de ganhar? - me sinto insegura pela primeira vez, desde que bolei esse plano, enquanto revirava na minha cama depois de ver a notícia no jornal.

 

- Pra sua sorte, eu não vou competir com você. - o garoto sorri e coloca seu braço por cima de meus ombros, olho para ele. E pra minha distração, ele é muito lindo. - Então, sim.

 

O vento frio da noite estava começando a se dissipar agora.

 

- Até porque é um campeonato feminino. - sinto o calor chegar as minhas orelhas e consigo sorrir, Luka encara bem o fundo dos meus olhos.

 

O garoto permanece em silêncio e sinto o seu hálito quente conforme ele se aproxima. Com meu rosto fervendo desvio o olhar para o sol novamente. Sem distrações!

 

- E você sabe... que eu ganharia de você a qualquer hora. - digo, quebrando o silêncio.

 

O menino, agora praticamente um homem, dá uma risadinha e o sol sai do esconderijo, à linha do horizonte. Ao mesmo tempo que quero focar somente no concurso, não sei se consigo negar minha repentina atração, que aparentemente é recíproca, por Luka.

 

- É melhor você começar a se aquecer, o concurso vai começar em uma hora. - Luka aponta para as tendas de patrocinadores sendo montadas.

 

- É verdade. - não resisto e faço um leve carinho em sua bochecha com o polegar.

- Você é incompreensível Lily… - seu tom de voz não é decepcionado, triste e nem bravo, parece até meio divertido.

 

- Mas você gosta..!

 

Me ponho de pé antes que ele possa responder, tiro o short jeans, ficando só com a roupa necessária para surfar, e corro em direção a água, quanto mais perto eu chego do mar, mais energizada fico. Eu não surfava há algum tempo e o nervosismo me atinge com tudo, mas persisto. Começo a remar em um movimento ritmado, me afastando cada vez mais da areia, de Luka, de tudo que antes estava na minha mente. Aqueço-me durante o que julgo ser 40 minutos e depois volto para a praia, alguns olhares curiosos me espiam e eu sinto que passei uma boa primeira impressão.

 

Luka caminha até mim com uma garrafa de água e uma barra de cereais, que como agradecida. E espero descansando o tempo que posso antes da bateria começar, o que não é muito. O campeonato vai começar em poucos minutos, e Luka me envolve em um abraço carinhoso:

- Sei que você está nadando contra a corrente agora, em relação a sua tia, a sua escola… Mas sei que seu pai estaria orgulhoso de você, assim como eu. Agora vai, minha flor, e da seu melhor. - ele termina seu incentivo sorrindo.

 

Sem me dar tempo para pensar, eu o puxo para perto de mim e o beijo. Levo minhas mãos a seu pescoço e ele me aperta para mais si, sua boca é gentil e um fluxo de energia flui por todo o meu corpo. Nos separo com um sorriso.

 

- Para dar sorte.

 

Pego Baby nos braços e volto para o mar, agora tudo era pra valer. Meu futuro está em jogo nesse momento e o medo parece me sufocar, inspiro e expiro com calma, tentando controlar meus nervos. A voz de meu pai passa por minha mente, você consegue. Ou talvez tenha sido o quebrar de uma onda ao fundo, de qualquer maneira, me coloca nos eixos e me deixa focada na competição. Uma buzina toca e esse é o sinal para a primeira competidora começar, Jenny Fox, ela também estava em primeiro no ranking e era minha maior oponente, mas eu seria a próxima. No total cada surfista tem direito a 20 minutos, e as duas manobras com as notas mais alta são as que contam no final da competição.

 

Jenny começa sua primeira manobra fazendo um Cutback se direcionando para a espuma da onda, exigindo um raciocínio rápido, mas suas manobras que mais pontuaram foram Floater, passando pela crista da onda e o Layback, que é uma das mais agressivas, nela a garota provoca uma Rasgada forte o suficiente para deitar de costas na onda. Quando seu tempo termina, ela parece satisfeita com seu empenho, e qualquer um estaria, mas não tenho muito tempo para pensar nisso, já que vou logo em seguida.

 

Escuto a buzina e começo a remar, um braço atrás do outro, sentindo meu coração bater contra as costelas, me movimentando conforme o mar. Já de primeira, faço a Batida, rasgando a onda de um jeito curto e vertical, e me posiciono para um Aéreo mas me atrapalho na hora de voar sobre a onda e caio. A água me engole e posso sentir a pressão em meus pulmões, porém reajo rápido e nado de volta para superfície, subindo em Baby novamente, tento acalmar a sensação decepcionante de ter caído e encosto a testa na prancha roxa. Uma lágrima brota e a deixo cair, passo a água salgada no rosto e sinto o tempo escorrer por meus dedos, eu não posso me dar ao luxo de desistir de meu sonho. Outra onda começa a se formar, analiso como ela se forma, não é boa o suficiente. O mar se acalma por um segundo, sabe aquele único momento onde você não ouve nenhuma onda quebrar, onde só se ouve o ar entrando e saindo pelos seus pulmões? Semicerro os olhos e espero.

 

Agora! O barulho volta com toda a sua força, uma nova onda surge e toma forma, e começo a remar, colocando todas as minhas forças nos movimentos. Essa é minha última chance. A onda fica maior e ganha consistência, dou um impulso para cima e fico de pé sobre a prancha, dou uma Rasgada limpa e com força, e me preparo. Flexiono meus músculos e dou um Aéreo, segurando Baby com as mãos e voando por cima da onda, o faço com perfeição dessa vez. Aproveito a empolgação e faço um giro 360º graus completando minha manobra, saio da onda. Meu peito sobe e desce rápido pelo esforço, mas a felicidade é maior, mal consigo controlar uma risada, estou completamente extasiada mas tento me controlar. A buzina toca novamente, e é a vez da próxima competidora, isso segue dessa maneira até todas as 15 garotas terem sua vez, fico preocupada com seis delas serem melhores que eu. Saímos todas da água.

 

A hora da decisão está próxima, todas nós esperamos os resultados, Luka fica do meu lado parecendo mais nervoso do que eu. Entrelaço nossos dedos agora com uma calma repentina, eu já tinha dado meu melhor no oceano, agora era com os juízes.

 

- Você vai ter um treco antes de mim, fica calm.. - antes que eu posso falar, um juiz de uns 40 anos com a pele bronzeada e cabelos compridos de dread começa a falar no microfone e eu aperto a mão do garoto com força.

 

- Vamos anunciar o terceiro lugar agora. - ele sorri e pega um papel, o segura em frente aos olhos - Todos podem aplaudir Jenny Fox!

 

A garota sorri para todos e se direciona ao pódio, se colocando em posição. Um pequeno troféu e um colar de flores é entregado a ela.

 

- Agora o segundo lugar vai para...

 

- Eu acho que vou infartar. - Luka movimenta o tronco para frente e para trás, e leva nossas mãos dadas até a boca, depositando um beijo ali.

 

- Emily Fitzgerald!

 

A garota sobe com um sorriso de orelha a orelha, e agora é tudo ou nada. Ou eu fico em primeiro, ou não chego nem perto do pódio.

 

- Agora rufem os tambores para a primeira colocada…

 

Fecho os olhos com força, quase posso ouvir a voz de minha tia gritando comigo, esbravejando comigo até perceber que ela realmente estava parada ao meu lado. Me encarando da mesma forma que fazia quando eu chegava em casa toda molhada depois de passar a tarde no mar sem sua permissão.

 

- Você ficou louca de vez Lily Stevens! Como você ousa…?

 

- Tia Eva?! - minhas pernas bambeiam e o ar parece sumir do meu corpo.

 

- Ahh.. Lily, quando você vai aprender a seguir ordens?

 

- LILY STEVENS! - o juiz fala ao mesmo tempo que minha tia.

 

Meu cérebro parece derreter nesse momento, eu realmente ganhei! E Eva está aqui ao meu lado, para me puxar para longe do prêmio, para longe do que tanto esperei. Me sinto murchar dentro de minha própria pele.

 

- Você...ganhou.. - a mulher de 48 anos leva as mãos a boca, e vejo lágrimas em seus olhos. Mas ela não parece mais brava, ou triste nem mesmo decepcionada, não mais pelo menos, parece...feliz, envolta de memórias, talvez de meu pai. - Você tem que subir lá!

 

- Sim, tem mesmo! - Luka olha para mim sorrindo e me empurra gentilmente em direção ao pódio.

 

Subo lá em cima, a mesma moça que tinha entregado as flores e troféus vem até mim sorrindo, me entrega as duas coisas. Levanto acima de minha cabeça o troféu dourado e o agito, olho para o reflexo do sol nas ondas e me sinto abraçada por papai, depois para Luka e finalmente para minha tia. Já não me sentia mais nadando contra a corrente. Agora eu fazia parte dela.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Please reload

Please reload

Arquivo
Logo-Revista-02.png