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A Netflix falhou com o Justiceiro?

 

 

Com o lançamento do serviço de streaming Disney+, tornou-se complicado para a Netflix continuar produzindo conteúdo da Marvel por questões de direitos autorais, então tais projetos tiveram que ser freados. Agora que acabou, vamos ver se valeu a pena, pois tivemos altos e baixos. A série do Demolidor é muito boa, um nível de qualidade excelente, violenta e fiel aos quadrinhos. A de Jessica Jones, por sua vez, teve uma primeira temporada ótima, mas havia pouco material para mais histórias, a super-heroína teve poucas HQs, e, com o tempo, a série foi perdendo os seus propósitos originais. Luke Cage e Punho de Ferro têm elementos bacanas, mas não superam os seus problemas, como conflitos desinteressantes e roteiros fracos. Já Defensores, a união dos quatro personagens, foi totalmente desperdiçado,  a trama é extremamente superficial e mal construída. E, por fim, temos Justiceiro, um caso complicado. 

 

O Justiceiro foi muito bem recebido pelo público quando apareceu na série do Demolidor, mas, por alguma razão, sofreu críticas negativas quando ganhou uma produção própria. O principal ponto, pelo menos o mais óbvio, é que o personagem não era mais o mesmo quando virou o protagonista, não era o mesmo Frank Castle, ele não tinha mais a mesma postura perante o mundo. Apesar de repentina, essa transformação foi extremamente necessária.

 

Vamos falar na real, o Justiceiro representa uma visão ultrapassada de heroísmo e anti-heroísmo. The Punisher, nome original em inglês que traduzido seria como “O Punidor”, começou como um vilão nos quadrinhos do Homem-Aranha, logo, ganhou popularidade e narrativas próprias.

 

O personagem, na maioria das edições, é muito raso em personalidade, com poucas linhas de diálogo e conflitos simples. Tão genérica em certo sentido que fica claro porque é tão fácil identificar-se com ele. Frank Castle, mais do que um personagem ou ser humano, representa uma ideia, um símbolo. Sua popularidade chegou no auge nos anos 90, época em que os índices criminais apenas cresciam, assim como a desconfiança nas Instituições Públicas. “O mundo está um caos, então eu tenho que trazer a sanidade de volta”, essa era uma ideia popular no período, refletida assim em histórias com homens e mulheres extremamente fortões e sarados.

 

Existem histórias muito boas do Justiceiro, mas está cada vez mais difícil de justificar a existência de suas narrativas, o mundo atual é complexo e foge do ideal maniqueísta de Frank Castle. Todos os outros heróis, violentos ou não, possuem outras camadas, crenças e obstáculos mais interessantes. Não se trata apenas de “bandido bom é bandido morto”. 

 

Não estou dizendo que é errado criar personagens imorais. Por exemplo, Breaking Bad, de Vince Gilligan, Coringa, de Todd Phillips, Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick, ou até mesmo Pulp Fiction, de Quentin Tarantino. Todas essas histórias são autoconscientes de sua temática e, em momento algum, idealizam seus personagens ou ações, muito pelo contrário, realizam discussões muito mais profundas sobre a maldade humana. A questão também nunca foi sobre a violência, algo importante na arte e no entretenimento, mas sim sobre certos ideais não caberem no mundo atual.  

 

A história de um veterano militar que teve sua família assassinada e agora mata todos que acha que merecem, somado à uma erotização de armas, músculos e sangue, é tão datada que fica tosco. Poxa, tudo isso é tão vazio que o único elo de empatia que temos com o Justiceiro é a violência obscena. E mais ainda, ele promove um pensamento de que tudo que é oposto ao seu ideal deve ser eliminado. 

 

Mas existem quadrinistas que perceberam essa cilada e conseguiram manter o anti-herói relevante, com muita ironia, claro. Tem uma HQ em que o Frank virou uma entidade cósmica e está cuidado do Thanos ainda criança, tentando impedir que ele vire um tirano. Em um determinado momento, The Punisher vai para o futuro no intuito de descobrir como será a nova versão do titã. Ele viu que o mundo estava perfeito, sem conflitos e todos viviam em paz, até notar a presença de enormes destroços da antiga civilização. Seu “filho adotado” matou todos que se opunham ao seu modo de pensar, isto é, o modo que o Justiceiro pensava. Esse é um ótimo exemplo de trama do personagem, divertida, cheia de ação e que questiona suas crenças de forma orgânica.   

 

Enfim, o Justiceiro, quando coadjuvante do Demolidor, estava perfeito, pois não precisávamos nos identificar com o personagem, ele era quase como um vilão. Sem falar que o tema da temporada em questão era sobre os diferentes tipos de moralidade. Já em sua série própria, que teve o lançamento adiado após um massacre com armas de fogo, tínhamos que desenvolver algum nível de empatia para com ele. Existiram aí questionamentos sobre a indústria bélica e o exército, mas superficiais.

 

A série do Justiceiro não é perfeita, eu ainda prefiro suas cenas em Demolidor, mas a Netflix tentou criar algo relevante sem descaracterizar muito o Frank Castle. Eu acredito que é possível escrever boas narrativas com ele, mas é um caminho difícil. Todos os dias a sociedade muda um pouco, nada mais normal que os nossos símbolos e heróis sejam substituídos ou repensados. Só nos resta perguntar: quais serão os heróis do futuro? E quais serão deixados no passado?      


 

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